Porque é tão mais fácil deixar-se cair, porque nos atrai e não lhe queremos resistir, porque depois de tocar no fundo não se pode descer mais e não há batalhas lutas ou guerras que nos façam procurar cais.
Existem dias assim, crescendo no tempo, que nos fazem sentir insignificantes e pequenos em face de nós próprios, em que nos julgamos sem atenuantes e nos condenamos sem dó. E assim ocupamos todos os lugares vazios de memórias, com restos de fotografias, tiradas a um futuro sonhado a cores que se fundem, e se transformam agora em imagens que confundem.
E nesta profunda desordem, fechamos a porta, para que não se veja que a vida vai torta, que o sol já não chega para secar os estragos e aquecer vontades e vivemos dias sem fim com demasiadas horas para o que sobra de nós e apenas querendo chegar ao fim, daquela hora, daquele dia, daquele lugar e daquela história. Fechar os olhos e adormecer. Deixar de saber. Deixar de querer e de recordar. Evitar sonhar.
E repousamos, no fundo desse abismo infinito, entre dias que passam e vozes que gritam. E nestes dias em que nos pedem e roubam muito mais do que temos em nós, voltamos a sentir-nos vazios e sós. Vazios. Sentir. Voltamos a sentir. Primeiro um raio de sol. Depois as gotas de chuva. Entre vagas repetidas e correntes de espinhos, voltamos ao caminho. A uma mão que se estende, nos aperta e nos puxa, nos senta no alpendre, de cara para a vida, como um filme que passa, numa tela longínqua, desfocada, mas brilhante e convidativa…e estamos a um passo...